O Caso Camaro
(Parte um)
Eu estava dirigindo para casa quando meu celular tocou. Na tela o nome já me dizia alguma coisa. Richard. Trabalho à vista, em plena noite de um Domingo.
“Ah, meu grande amigo Richard. O possuidor das notícias bombásticas.”
“Boa noite para você também, John.”
Dei uma leve risada ao ouvir a voz sarcástica do bom e velho amigo de faculdade.
“Boa noite, Richard. Mas tenho ou não razão em minha afirmação?”
“Posso dizer que sim. Eu já estava de saída quando me trouxeram um corpo. Acho que você gostaria de dar uma olhada.”
“Algo que possa adiantar?”
“Bem...” Richard pensou por um pequeno espaço de tempo e completou “Homem, 45 anos, 1,80m, garganta cortada e definitivamente desbotado pela água. Foi encontrado na margem do rio Dolley.”
“Mais um trabalho mal feito, hein?”
“Creio que sim.”
“Tudo bem, Richard. Estou a algumas ruas daí. Logo estarei chegando.”
“Até.”
Deliguei o celular e tentei ligar alguns fatos. Há duas semanas um corpo também havia sido encontrado às margens do rio Dolley. Nenhum suspeito até agora. Mas uma pergunta não deixava de me ocorrer: Que idiota faz um trabalho mal feito duas vezes?
Após fazer algumas curvas dei de cara com o prédio do IML. Esse lugar me dava calafrios, ainda mais à noite. Sempre tentei entender como Richard conseguia ficar olhando para cadáveres todos os dias, depois ir para casa, colocar a cabeça no travesseiro, as vezes dar prazer à sua esposa e dormir tranqüilamente. Isso sim era de dar medo.
Estacionei o carro na garagem e subi pelo elevador. O silêncio era mórbido, assim como o ambiente. Andando pelo corredor não era difícil achar que tinha alguém me seguindo. Devo ter olhado para trás umas três vezes. Me dei conta que já estava na hora de fazer uma visita ao meu psiquiatra. Entrei em uma das portas que ainda mantinham a luz de acesso acesa. Na verdade, era a única que ainda permanecia assim. Pensando bem, naquela hora, tive a certeza que devia levar Richard junto comigo ao psiquiatra. Ele estava de costas para a porta, com a costumeira luz fluorescente acesa apontando para uma mesa de metal recheada de carne morta. O mais desagradável não era o cheiro de morte que predominava o lugar, mas sim o cheiro da química que era ainda mais forte.
“Agora sim. Boa noite.” cumprimentei com minha costumeira cara de nojo.
“Boa noite, John.” respondeu sem se virar.
“Esse é o nosso astro da noite?”
“O próprio. Vê?” apontou para o corte no pescoço do defunto “Foi feito por algo bem afiado. E quem fez colocou uma força considerável, está bem fundo.”
Tentei me concentrar nas explicações que Richard me dava, mas era consideravelmente complicado. Meu nariz já ardia e meus olhos lacrimejavam.
“Me diga, Richard. Por que você escolheu esse trabalho? Por acaso é alguma penitência ou você é do tipo gótico?”
Ele deu uma gargalhada baixa e sem deixar de manusear o corpo continuou falando:
“Digamos que gosto de esclarecer mistérios e também porque me pagam bem por isso.” ele me olhou pela primeira vez na noite.
“Uhm... Boa resposta.”
“Existem alguns traços de violência. Os braços foram apertados, isso sugere que foi levado à força.” continuou.
“Não brinca...”
“E além disso ainda contém uma pancada profunda na perna direita. Aqui.” apontou “Bem no meio da canela.”
“Isso deve ter doído.”
“Garanto que não tanto quanto o corte da garganta.”
“Nessa eu estou contigo.”
Olhei mais detalhadamente no rosto da vítima. O machucado na canela ou a roxidão no braço não me importavam muito. Isso era trabalho de Richard. O corte na garganta podia ser útil. Mas o rosto era essencial. Nenhum traço semelhante me veio à cabeça. Mas lembrei de outra coisa importante.
“Ele tinha algum pertence?”
Richard virou-se e pegou a prancheta que estava na mesa ao lado. Revistou o papel rapidamente.
“Sim. Ele portava uma carteira, um anel e um cordão.”
“Documentos?”
“Apenas um cartão de acesso do estaleiro.”
“Então não foi reconhecido ainda.”
“Não.”
“E onde estão as jóias?”
“Drew levou-as para o depósito. Serão levadas para registro pela manhã.”
Drew era um porco inútil. Nunca fui com a cara dele. Sua capacidade de ser escroto era totalmente alta.
“Que bela notícia, Richard.”
“Desencana. Eu vou até lá e peço que me deixe dar uma olhada. Daqui a pouco ele sobe para jantar.”
“Certo, assim soa bem melhor.”
Richard desceu até o depósito e ficou de me dar um sinal assim que Drew subisse. A escrotidão do segurança da noite era porque ele adorava implicar com todos. Principalmente comigo. É uma longa história. É completamente satisfatório ele não saber que andei olhando os objetos do defunto, isso daria muito o que falar no gabinete do chefe Gibbs pela manhã. E eu seria o ouvinte direto, sentado na cadeira à frente. Ainda esperando por Richard decidi olhar mais detalhadamente o relatório que havia sido feito da vítima. Nas observações encontradas nas folhas detrás existiam algumas linhas rasuradas.
“Que tipo de porco faz um trabalho desses?”
Espremi os olhos para tentar entender o que estava escrito na rasura, mas não foi possível. Quem quer que tenha escrito aquilo definiu o que foi colocado ali como absolutamente inviável e incorreto, mudando de opinião nas linhas seguintes.
A suposta vítima mostra concussões que remetem à violência explicita. O agressor, antes de cortar sua garganta, abusou de manuseios fortes e agressivos. O corte feito é profundo, certamente feito por um objeto muito afiado.
Levei um pequeno susto quando Richard ligou para meu celular. Deixei o relatório onde o havia encontrado e peguei o elevador para o depósito. Fui o mais rápido que pude, não queria dar de cara com Drew.
Cheguei na sala apressadamente e já fui mexendo nos pertences. O anel era de prata e o cordão de ouro. Pareciam normais à primeira vista. Tentei perceber algum detalhe em ambos e não reparei em nada. O cordão era normal, como já tinha percebido, possuía um pingente de São Jorge e era de um tipo trançado. O anel era liso, sem adornos. Resolvi olhar por dentro do anel. Havia uma inscrição. Um nome e uma data.
“Camaro, 22/11/1987” Li em voz alta.
“Como?” Perguntou-me Richard.
“Está escrito no anel, por dentro.” Pensei um pouco “Richard, esse anel estava no dedo do defunto?”
“Eu não vi.”
“Acho melhor checarmos isso. Esse nome não me é estranho. Temos que ter a certeza se cabe em seu dedo.”
...
Saímos do depósito subindo pelas escadas. Tínhamos demorado uns quinze minutos lá dentro e eu não sabia se o velho Drew comia ou devorava. Seguimos para a sala onde o morto estava por um lado diferente do prédio. Aquelas luzes fluorescentes já estavam começando a me dar dor de cabeça.
“Richard...”
“O que?”
“Enquanto eu esperava na sala dei uma olhada no relatório. É correto rasurar um documento daquele tipo?”
“De forma alguma. Do que está falando?”
“Bem, na terceira folha, onde alguém descreveu os ferimentos e a forma de como o crime teria sido cometido havia uma rasura.”
Richard parou e me olhou com a cara fechada. Eu sabia que ia levar uma bronca por ter mexido nas coisas dele. Mas por outro lado sabia que ele não tinha reparado no que acabara de lhe dizer.
“Primeiramente, John. Você sabe que não devia estar olhando esse tipo de documento. Não está finalizado e pode acatar em definições errôneas. E segundo...”
Ele olhou pela janela e ficou em silêncio.
“Segundo?”
Richard voltou a me olhar franzindo a testa.
“Segundo quem rasurou aquela informação fui eu.”
Fiquei chocado com o que estava escutando. Richard tinha acabado de me informar que rasurar um documento daquele não era uma atitude correta, ou seja, pelo que ele entende por atitudes corretas, aquilo só podia significar queima de arquivo. Quando dei por mim Richard estava tirando uma arma do bolso e apontando para meu peito. Não acreditei no que estava acontecendo. Olhei diretamente nos olhos dele e não soube o que falar.
“Me desculpe, John. Mas não fazia parte do plano você bisbilhotar o relatório. Entre.”
Eu entrei na sala e ele fechou a porta. Eu ainda estava confuso com a situação. Pela primeira vez na vida eu estava sendo usado por meu próprio amigo.
“Qual é, Richard. Eu não estou acreditando. Você ia me usar para repassar informações falsas? Desde quando você precisa fazer esse tipo de coisa, cara?”
“Desde quando sou ameaçado.”
“Estão te ameaçando? Por Deus, Richard! Eu estou com você, e você sabe muito bem disso. A gente pode ferrar esses caras juntos!”
“Não, John. Não é tão simples assim. Eles estão com a Rebecca. Se eu fizer alguma merda eles a matam.”
“Os desgraçados pegaram a Rebecca? Filhos da puta!”
“O que eu faço agora, hein? MERDA!” Richard deu um soco na mesa de metal com a mão que não estava segurando a arma. “Por que você tinha que mexer nesses papéis, John?”
“Eu sou um detetive. É o que eu faço.”
Ficamos em silêncio durante um tempo. Richard se remexeu, resmungou e aproximou-se do defunto.
“Me dá o anel.” Pediu-me.
Tirei o anel de prata do bolso e entreguei para ele. Já em suas mãos, ele pôs suas luvas e com todo o cuidado manuseou as mãos do morto para tentar colocar o anel. A ponta de todos os dedos entraram, mas não passou disso. O anel não pertencia à vítima. O anel pertencia ao assassino.
“E então, Rchard?”
“O que você quer que eu faça, John? Minha esposa está com uma arma apontada para a cabeça nesse exato momento.”
“Só quero que você pense bem no que vai fazer.”
Richard pôs o anel perto da pia e ficou olhando-o. Encostei na parede à sua frente e esperei por alguma resposta.
“O que você sabe sobre esse tal Camaro?” Richard enfim cortou mais uma vez o silêncio.
“Uma vaga lembrança me traz uma vaga resposta. A única coisa que me recordo é sobre ter trabalhado em um caso onde havia um clube com esse nome, Camaro. E adivinha só...” Richard me olhou “Fica bem próximo ao rio Dolley.”
Gustavo Gaspar

